AVALIAÇÃO DE DESEMPENHO DO SISTEMA DE GESTÃO DE SEGURANÇA E SAÚDE NO TRABALHO DE UMA INDÚSTRIA DE ESPUMAS

12 março 2022
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Author :   Rafaela Pereira & Hernâni Veloso Neto
RAFAELA PEREIRA | Engenheira do Ambiente. Pós-graduada em Ergonomia. Mestre em Gestão de Segurança e Saúde no Trabalho. Conselheira de Segurança. A exercer funções na indústria de espumas flexíveis de poliuretano. | srafaelapereira@gmail.com; HERNÂNI VELOSO NETO | Sociólogo. Professor Coordenador do ISLA – Instituto Politécnico de Gestão e Tecnologia, onde é diretor da Licenciatura em Engenharia da Segurança do Trabalho e do Mestrado em Gestão da Segurança e Saúde do Trabalho. | hernani.neto@islagaia.pt Pereira, R.; Neto, H. V. (2022). Avaliação de desempenho do sistema de gestão de segurança e saúde no trabalho de uma indústria de espumas, 15, 44-53. GA, Lda. Lisboa. Portugal

O objetivo do presente estudo foi avaliar o nível de desempenho do sistema de gestão de segurança e saúde no trabalho (SST) de uma indústria de espumas com a aplicação do SafetyCard – Performance Scorecard for Occupational Safety and Health Management Systems. A ferramenta foi utilizada no seu formato original, que inclui indicadores relativos ao clima organizacional de segurança, potenciados pela aplicação do inquérito às/aos trabalhadoras/es sobre clima e cultura de segurança, que avalia as perceções e atitudes individuais de SST dos trabalhadores. Os resultados obtidos nesta indústria revelam que o sistema e gestão de SST da empresa apresenta um desempenho “muito bom” em matéria de SST e os três domínios analíticos que revelam resultados menos positivos são a segurança de equipamentos de trabalho, o desenho organizacional e a cultura organizacional. Para potenciar a melhoria desses indicadores foram propostas ações de melhoria.

INTRODUÇÃO
A melhoria da segurança e saúde dos trabalhadores obtém-se com a aplicação de um conjunto de princípios e práticas de segurança e saúde no trabalho (SST) sustentados quer em documentos legais quer em documentos normativos. A implementação de um sistema de gestão de SST facilita e potencia o cumprimento e gestão dessas exigências, seja ele certificado com base num determinado referencial ou não.
Os sistemas de gestão têm inerente uma filosofia de melhoria, a qual deve encontrar-se “ancorada na avaliação de desempenho e, mais em concreto, nos dados que o conjunto de indicadores que os substanciam favorecem” (Neto, 2009, p. 947). No entanto, sempre que é abordada a estatística e a gestão das condições de segurança e saúde no trabalho das Organizações, no imediato, o pensamento é direcionado para a monitorização de indicadores reativos, nomeadamente indicadores de sinistralidade. Desta forma, a métrica adotada pelas organizações assenta, essencialmente, sobre um olhar no passado, pelo que se torna importante tentar impulsionar e adotar métricas distintas de monitorização, nomeadamente ao nível de indicadores proativos.
Quando se fala em SST torna--se inevitável não descurar os comportamentos do trabalhador como um dos fatores de risco associados a cada atividade laboral. Como tal, será necessário tentar conhecer os mecanismos que influenciam cada comportamento (características individuais, cultura organizacional, procedimentos internos, etc.), nomeadamente os que representam comportamentos de risco e a abordagem mais adequada para que os mesmos sejam influenciados positivamente, no sentido da prevenção laboral e, consequentemente, redução das taxas de sinistralidade laboral. Já que as ações humanas estão entre as causas mais comuns dos acidentes de trabalho e outras ocorrências perigosas em contexto laboral (Jacinto et al., 2010; Ye et al., 2018).
Neto (2012) considera que a cultura organizacional é um dos determinantes da cultura de segurança. Nas Organizações onde a cultura organizacional não contempla uma componente de segurança desenvolvida, torna-se um verdadeiro desafio obter resultados nesta influência comportamental positiva que se pretende alcançar. O mesmo autor desenvolve e apresenta uma matriz estruturada de indicadores de desempenho, designada por SafetyCard – SafetyCard – Performance Scorecard for Occupational Safety and Health Management Systems. A ferramenta está organizada em sete fatores chave de sucesso, cada um deles segmentado em subfactores chave, os quais consideram diferentes indicadores. O SafetyCard inclui um inquérito que permite medir o clima organizacional de segurança. Duas das grandes vantagens do SafetyCard é o facto de possibilitar a sua utilização global ou parcial e permitir às organizações a realização de exercícios de benchmarking, já que o resultado final congrega os resultados numa grelha ponderada com intervalos de classificação face aos resultados encontrados.
O objetivo do presente estudo centra-se na avaliação de desempenho do sistema de gestão de SST de uma indústria de espuma, tendo por base a aplicação integral do SafetyCard. Serão apresentados e discutidos resultados dessa experiência nesta indústria, com dados recolhidos durante o ano de 2019 e distribuição do inquérito às/aos trabalhadoras/es sobre clima e cultura de segurança durante a última semana do mês de maio e primeira semana do mês de junho.

CULTURA E CLIMA ORGANIZACIONAL DE SEGURANÇA ANCORADOS NA COMUNICAÇÃO
A cultura de segurança é parte da cultura organizacional de qualquer organização (Guldenmund et al., 2010; Vassem et al., 2017). Quando a cultura organizacional prioriza a segurança do trabalho, então a cultura de segurança está presente na organização (Glendon & Stanton, 2000; Vassem et al., 2017).
“A cultura de segurança, na sua essência, será […] um misto de definição e compartilhamento de padrões de comportamento e de significado” (Pereira & Neto, 2020b, p. 20). A realidade organizacional é sempre multifacetada e multidimensional, representando uma conjugação de visões, valores, atitudes, comportamentos, significados, normas e artefactos construídos socialmente e enraizados historicamente no ambiente organizacional. Logo, a cultura de segurança reflete essa mesma realidade, mas no que toca à SST, devendo a sua análise e caracterização contemplar essa variedade e multidimensionalidade (Pereira & Neto, 2020b).
Uma vez que o fator humano faz parte do desempenho e dos resultados de sucesso e insucesso do sistema de segurança e saúde no trabalho, trabalhar e melhorar o clima de segurança é um dos principais fatores necessários para alcançar a excelência da prevenção (Kim et al., 2019). Tal como refere Zamani et al. (2020), o clima de segurança é um fator organizacional efetivo para reduzir os riscos e a sinistralidade laboral.
Um dos percursos a seguir para alcançar um clima de segurança positivo é o de promover a interação entre as equipas de trabalho e diferentes hierarquias da organização e promover a execução de novos projetos considerando a segurança como prioridade (Zamani et al., 2020). Além disso, sempre que se lida com qualquer sistema em que o ser humano está envolvido, a comunicação é um componente vital. Sem que exista uma comunicação efetiva, nenhuma atividade pode ser realizada com sucesso (Zamani et al., 2020).
As situações de conflito, de desentendimento ou de incompreensão, com origem em comunicação enviesada ou informação transmitida de forma pouco clara, tendem a acontecer nas organizações. Por vezes, os trabalhadores vivenciam desconforto ou atraso nas suas tarefas por desconhecimento prévio de informação fulcral ao desempenho das suas funções. Estes são alguns dos exemplos que demonstram a importância da comunicação na entrega às funções e/ou eficácia no seu desempenho. De acordo com Wu et al. (2016, citado por Zamani et al., 2020) tanto quanto mais for promovida a comunicação entre os elementos das equipas de trabalho, mais se consegue evitar conflitos, que, por sua vez, contribui para uma maior entrega de cada um.
A comunicação de segurança é definida por Zamani et al. (2020) como sendo a troca e partilha de conhecimento de segurança entre os elementos de uma organização com intuito de realizar as suas tarefas em segurança ou ganhar um conhecimento maior sobre os riscos. A comunicação de segurança pode ser formal ou informal. Assim, “um clima de segurança positivo reflete um ambiente onde os trabalhadores se sentem confortáveis para expor a sua opinião e dúvidas relativas à segurança” (Edmondson, 1996, citado por Zamani et al., 2019, p. 3). Por outro lado, um clima de segurança negativo reflete o receio dos trabalhadores comentarem e abordarem as temáticas prementes, com medo de serem reprimidos ou punidos pelas suas chefias (Zamani et al., 2020).
De acordo com Ghahramani et al. (2019, citado por Kim et al., 2019) não é suficiente desenvolver um bom sistema de gestão de SST, é necessário que as pessoas da organização garantam o sucesso da sua implementação. Para tal, “o desenvolvimento do clima de segurança é necessário para melhorar o desempenho do sistema” (Kim et al., 2019 p.48), tal como evidencia a própria literatura, que enaltece e comprova “a importância do clima de segurança nos resultados relacionados com a SST” (Kim et al., 2019 p. 48)

AVALIAÇÃO DE DESEMPENHO DE SISTEMAS DE GESTÃO DE SEGURANÇA E SAÚDE NO TRABALHO
Um sistema de gestão pode ser definido como a relação entre elementos que podem ser usados para estabelecer, implementar e alcançar diferentes políticas e objetivos, com base em atividades de planeamento, responsabilidades, práticas, procedimentos, processos e recursos (Silva, et al., 2019). Qualquer sistema de gestão, certificado ou não, pressupõe ser alvo de avaliação sistemática do seu desempenho, com intuito de avaliar a eficácia e eficiência das estratégias definidas e alavancar a definição de novas estratégias para manter a constante dinâmica e melhoria contínua dos sistemas.
Mesmo perante a constante evolução e atualização dos documentos normativos orientadores para os diversos sistemas de gestão (incluindo a evolução das OHSAS 18001 para a ISO 45001), a sua base assenta no modelo delineado pelo ciclo de Deming ou ciclo PDCA (Plan, Do, Check, Action).
A avaliação de desempenho de um sistema de gestão está diretamente relacionada com a fase Check (verificar) do ciclo PDCA. Em termos da norma ISO 45001:2018, essa fase está contemplada no requisito 9 do referencial normativo. A avaliação do desempenho será fundamental para a quarta fase seguinte do ciclo, Action (atuar, ajustar) – Melhoria, a qual está prevista no requisito 10 da referida norma. Daqui se pode inferir que nenhum sistema de gestão pode perspetivar melhoria se não estiver consciente do seu desempenho, ou seja, se não monitorizar as suas atividades e avaliar de que forma as estratégias definidas estão adequadas ou não.
A ISO 45001 introduz como novidade a perspetiva do envolvimento da gestão de topo das organizações, exigindo que esta assuma a responsabilidade pela eficácia do sistema de gestão, bem como a integração de uma perspetiva para a melhoria da saúde e bem--estar dos trabalhadores. Apesar das diretrizes instituídas para planear, implementar, manter e, consequentemente, avaliar o desempenho de um sistema de gestão de segurança e saúde no trabalho estarem perfeitamente definidas, não existe uma definição específica na norma das métricas que devem ser utilizadas. Mas esse também não é papel do referencial normativo, fornece a orientação geral sobre a utilização de indicadores, mas depois compete a cada organização definir qual a abordagem que quer seguir. Na área da SST é habitual a avaliação de desempenho ser sustentada meramente por indicadores de sinistralidade, o que se revela manifestamente insuficiente para retratar o desempenho de um sistema de gestão de segurança.
Neto (2012), desenvolveu uma ferramenta que pretende ter uma visão mais abrangente sobre a organização dos serviços de segurança e saúde no trabalho e, consequentemente, obter uma avaliação de desempenho dos sistemas de gestão baseada em perspetivas mais positivas e proativas, em contraponto ao classicismo negativo da sinistralidade.
O SafetyCard é uma ferramenta que permite a avaliação de desempenho de sistemas de gestão de SST. Considera 7 fatores chave de sucesso na área (domínios analíticos) que se subdividem em 20 segmentos e um total de 110 indicadores.
Os indicadores selecionados incorporam perspetivas tanto proactivas como reativas das atividades de segurança e saúde no trabalho numa Organização. Além de se focar na organização e operatividade das atividades de SST desenvolvidas, o SafetyCard, através do Inquérito às/aos trabalhadoras/es sobre clima e cultura de segurança procura conhecer e caracterizar quais serão as perceções e atitudes individuais de SST dos trabalhadores (domínio analítico “Suposições Básicas das/os Trabalhadoras/es”).

ABORDAGEM METODOLÓGICA
A ferramenta SafetyCard foi aplicada numa empresa da indústria de espumas flexíveis de poliuretano durante o ano de 2019. De acordo com o autor, “a lógica operativa do modelo respeita os preceitos do scorecarding” (Neto, 2012, p. 87), o que lhe permite, por um lado, integrar uma matriz de desempenho global da organização e, por outro, ser a base de iniciativas objetivas e estruturadas de benchmarking.
Para a caracterização da Organização no que respeita às condições relativas à implementação da SST, o SafetyCard incorpora um inquérito, na forma de um formulário de notação, a ser aplicado aos serviços de SST da organização, de modo a permitir especificar o âmbito das atividades desenvolvidas e os resultados da sua atuação. Como já mencionado, considera 110 indicadores que podem ser utilizados na totalidade ou, mediante a realidade de cada Organização serem usados parcelarmente, uma vez que o SafetyCard possui um caráter modular (Neto, 2013). No presente estudo foram utilizados um total de 109 indicadores. O segmento analítico “Formação”, passou a incorporar apenas 6 indicadores, em vez dos 7 previstos na versão original. Para tal, foram realizados os ajustes necessários nas ponderações individuais de cada indicador deste segmento.
A análise dos dados será realizada de acordo com a estrutura analítica do SafetyCard, representada na Tabela 1.

Tabela 1 – Estrutura analítica do SafetyCard
DOMÍNIO ANALÍTICO SEGMENTO ANALÍTICO N.º DE INDICADORES
1. Desenho Organizacional Cobertura Técnica
Enfoque Sistémico

4
2

2. Cultura Organizacional Valores
Normas e Padrões Básicos de Avaliação
Suposições Básicas das/os Trabalhadoras/es

 3
7
12

3. Dispositivo de Saúde do Trabalho Vigilância
Promoção

6
2

4. Dispositivo Operacional de Higiene e Segurança do Trabalho Organização e Operatividade
Sinistralidade
Formação
Prevenção
Proteção
3
11
6
5
3
5. Plano de Emergência Interno (PEI) Planeamento
Atributos e Responsabilidades
Dispositivos
5
7
10
6. Dispositivo de Monitorização, Medição e/ou Verificação Controlo das Condições Ambientais
Mecanismos de Verificação, Monitorização e/ou Medição
Ação Corretiva
10
4
2
7. Segurança de Equipamentos de Trabalho Manutenção
Prescrições de Segurança
4
3
Total   109

Os sete domínios analíticos considerados pelo SafetyCard são os seguintes (Neto, 2012):
1-Desenho organizacional: caracteriza a empresa do ponto de vista da estrutura e organização dos serviços de SST, na medida em que considera, como segmentos analíticos, a cobertura técnica e o enfoque sistémico da gestão dessas atividades;
2 - Cultura Organizacional: foca-se nos valores e princípios da organização no âmbito de SST. Considera os Valores, Normas e Padrões Básicos de Avaliação e Suposições Básicas das/osTrabalhadoras/es como segmento analíticos;
3 - Dispositivo de Saúde do Trabalho: neste domínio irão ser considerados aspetos relacionados com a organização das atividades de saúde do trabalho, nomeadamente ao nível da Vigilância e Promoção da Saúde;
4 - Dispositivo Operacional de Higiene e Segurança do Trabalho: o presente domínio irá reunir um conjunto de segmentos analíticos capazes de caracterizar a capacidade da organização de controlar operacionalmente os seus riscos, nomeadamente no que respeita à Organização e Operatividade, o controlo e análise da sinistralidade, o planeamento e realização da formação, a organização de atividades de prevenção e os meios e medidas de proteção disponíveis e implementados;
5 - Plano de Emergência Interno: avalia a capacidade da organização de responder a eventuais emergências, pelo que serão tidos em conta o Planeamento das atividades, a existência de Atributos e Responsabilidades e os Dispositivos existentes;
6 - Dispositivo de Monitorização, Medição e/ou Verificação: aborda os aspetos associados ao controlo das condições ambientais, mecanismos de verificação, monitorização e /ou medição e o tratamento de ações corretivas para eventuais situações anómalas;
7 - Segurança de Equipamentos de Trabalho: centra-se na forma como a organização gere os seus equipamentos de trabalho em todas as fases, incluindo a sua aquisição. Considera aspetos relacionados com a manutenção dos equipamentos e prescrições de segurança existentes para a sua operação.
O SafetyCard prevê um sistema de ponderações para refletir as diferenças de importância dos diferentes indicadores, segmentos e domínios analíticos. Também considera um sistema de normalização de indicadores, que permite que todos ficam na mesma unidade de medida e que todas pontuações possam variar entre 0 e 1, o que favorece o apuramento de resultados parciais e um desempenho global. Como respeita os preceitos do scorecarding, permite a obtenção de uma visão global e estruturada de uma Organização no que à área de SST (Neto, 2013), uma vez que será obtido um resultado global quantitativo da avaliação do desempenho do sistema, podendo o mesmo ser classificado qualitativamente de acordo com a grelha apresentada na Tabela 2.

Tabela 2 - Grelha de classificação qualitativa do desempenho global

AVALIAÇÃO QUALITATIVA INTERVALOS DE CLASSIFICAÇÃO
Desempenho Muito Fraco < 0,150
Desempenho Fraco 0,150 < k < 0,300
Desempenho Insatisfatório 0,300 < k < 0,500
Desempenho Satisfatório 0,500 < k < 0,700
Desempenho Bom 0,700 < k < 0,850
Desempenho Muito Bom > 0,850

Integrado no domínio analítico Cultura Organizacional, encontra--se o segmento analítico Suposições Básicas das/os Trabalhadoras/es. Para avaliar este segmento analítico foi usado o Inquérito às/aos trabalhadoras/es sobre clima e cultura de segurança (Neto, 2012, 2013), que se encontra devidamente validado nos estudos realizados pelo autor. Os inquéritos foram aplicados aos vários setores da empresa, com uma explicação cuidada antes da sua resposta pelos trabalhadores, com o intuito de os informar sobre o objetivo do mesmo, bem como a estrutura e instruções para o seu preenchimento. Para garantir o anonimato das respostas, os inquéritos foram recolhidos no final numa caixa fechada. Foi alcançada uma taxa de resposta de 81%, não sendo superior por motivos de baixas, mudanças de horário ou ausências pontuais de trabalhadores no período de recolha de dados.

APRESENTAÇÃO DE RESULTADOS
Na Tabela 3 é apresentado o resumo dos resultados da aplicação do SafetyCard, organizados com base na estrutura da ferramenta aplicada. Face ao resultado global obtido (0,851), reúnem--se as condições de afirmar que o desempenho do sistema de gestão de SST da Organização é um desempenho "Muito Bom (0,851 > 0,850)", de acordo com a grelha de classificação qualitativa do desempenho global apresentada.

Tabela 3 - Resultados resumo do SafetyCard

PB – ponderação base que representa o somatório dos indicadores que integram os diferentes segmentos analíticos (ocultos no presente resumo)
M – multiplicador - para o segmento analítico está associado à ponderação base e ponderação máxima de cada segmento.
Para o domínio analítico está associado ao segmento e à ponderação máxima de cada domínio.

 Na Tabela 4 apresentam-se os resultados do Clima de Segurança Organizacional obtidos em 2019, após utilização do Inquérito às/aos trabalhadoras/es sobre clima e cultura de segurança. As questões que integram o inquérito que se apresentam pela negativa foram tratadas, estatisticamente, como variáveis invertidas para uma análise mais imediata e linear dos resultados. Pelos dados verifica-se que, na generalidade, o Clima de Segurança da empresa é positivo. Todos os índices fatoriais obtiveram um resultado médio positivo (2,5 a 3,75), correspondendo o valor mais baixo, 2,83, ao índice fatorial "Fatorial Qualidade das comunicações de segurança (QPCS). Conjugando-se todos os resultados, cremos poder afirmar-se que, de uma forma global, o desempenho do sistema de gestão da SST desta indústria é muito bom.

Tabela 4 - Resultados do Clima de Segurança Organizacional de 2019
Escala de análise: <1,25 (Muito Negativo), 1,25 a 2,49 (Negativo), 2,50 a 3,75 (Positivo), > 3,75 (Muito Positivo) (Moreira & Neto, 2019).

ÍNDICES FATORIAIS MÉDIA 2019 CLASSIFICAÇÃO
 Fatorial Qualidade das comunicações de segurança (QPCS) 2,83  Positivo
 Fatorial Efeitos do ritmo de trabalho (ERTS) 3,05 Positivo
Fatorial Internalização da segurança (INSEG)  3,10 Positivo
 Fatorial Comportamentos de risco (CRIS) 3,18  Positivo
 Fatorial Força institucional da segurança (FIS) 3,23  Positivo
 Fatorial Formação de segurança (QPFS) 3,35 Positivo 
 Fatorial Verosimilhança do risco (VRIS) 3,39  Positivo
 Fatorial Perceção valores e práticas de segurança (VPGSO) 3,51 Positivo
 Fatorial Implementação da segurança (ISEG) 3,52  Positivo 
Fatorial Aprendizagem com acidentes (AOAT) 3,61 Positivo
Fatorial Locus de controlo do risco (LCRIS) 3,65 Positivo
Fatorial Princípios gerais de segurança (PGSO) 3,98   Muito Positivo

DISCUSSÃO DE RESULTADOS
Depois de apresentados os resultados do SafetyCard e a pontuação global final obtida (0,851), pode afirmar-se que a empresa apresenta, de acordo com os critérios de classificação apresentados anteriormente (Tabela 2), um desempenho "Muito Bom" em matéria de SST. Os três domínios analíticos que apresentam resultados mais fracos são Segurança de Equipamentos de Trabalho; Desenho Organizacional e Cultura Organizacional. Relativamente ao domínio analítico Segurança de Equipamentos de Trabalho, os indicadores que influenciaram o fraco resultado estão relacionados com a ausência relatórios de verificação à totalidade de equipamentos de trabalho da empresa. No domínio Desenho Organizacional, apesar do segmento analítico Cobertura Técnica ter alcançado a pontuação máxima, o mesmo não se verificou para o Enfoque Sistémico. A pontuação máxima para este ponto poderá ser alcançada com a certificação dos sistemas de gestão de SST e Responsabilidade Social.
No que respeita ao segmento analítico Cultura Organizacional, que integra os três segmentos com menor pontuação, não tinha, até à data, sido realizado nenhum estudo concreto sobre Cultura de Segurança. No entanto, anualmente, é prática da empresa realizar estudo, com empresa externa sobre Clima Organizacional. Os últimos resultados de Clima Organizacional apontam a comunicação como um dos pontos mais débeis da Organização e as condições de SST aparecem com um dos pontos fortes na empresa.
Pela análise da Tabela 4, verifica--se que todos os índices fatoriais apresentam média positiva. Todos os índices fatoriais se enquadram na escala Positivo, exceto o Fatorial Princípios Gerais de Segurança que alcança o patamar Muito Positivo. Focando a análise nos dois piores resultados obtidos no que respeita ao Clima de Segurança no Trabalho. O índice da Qualidade das Comunicações de Segurança é o que apresenta o valor de média mais baixo (2,83). Este resultado corrobora as conclusões recolhidas no estudo de Clima Organizacional, organizado pelo Departamento de Recursos Humanos, ou seja, a área da comunicação é, efetivamente, uma das áreas a melhorar na Organização.
O fatorial Efeitos do Ritmo de Trabalho é o que apresenta a segunda média mais baixa. A empresa aumentou a significativamente a sua produção e, consequentemente, esse ponto vem refletir-se na pressão que é exercida sobre os trabalhadores e os tempos mais reduzidos para a realização das suas tarefas. Face aos resultados obtidos pode dizer--se que os ritmos de trabalho atuais da organização poderão ameaçar a segurança diária das suas equipas, pelo que este deverá ser um ponto a trabalhar por parte da empresa.
O índice fatorial que obtém a média mais elevada (3,98) é o fatorial Princípios Gerais de Segurança, ou seja, existe uma boa perceção dos trabalhadores sobre os princípios gerais de segurança em vigor na empresa.
Como já acima referido e evidenciado na Tabela 3 relativamente ao desempenho global, o desempenho em matéria de SST da empresa é "Muito Bom". No entanto, existem algumas oportunidades de melhoria que deverão ser analisadas e trabalhadas pela Organização com o intuito de alcançar um desempenho global "Muito Bom" mais próximo de 1. De acordo com toda a documentação analisada e os objetivos traçados pela Organização, nomeadamente as ações planeadas pelo Departamento de Ambiente e Segurança, as áreas identificadas como sensíveis pela Organização são, efetivamente, as que obtiveram resultados mais baixos.
Face aos resultados parciais obtidos para os vários domínios analíticos, poderão ser elencadas as áreas mais sensíveis e priorizadas estratégias para futuras intervenções nos seguintes âmbitos:
- Realizar a verificação e adequação de todas as máquinas e equipamentos de trabalhos aos requisitos mínimos de segurança previstos em legislação;
- Incluir no programa de gestão das atividades de manutenção as verificações específicas de segurança (no âmbito do previsto no Decreto-Lei n.º 50/2005), além da manutenção preventiva já realizada;
- Certificação do sistema de gestão de SST de acordo com o referencial normativo ISO 45001, por permitir uma melhor integração com os restantes sistemas de gestão (principalmente qualidade e ambiente);
- Promover a comunicação geral na organização;
- Formar e sensibilizar as chefias intermédias no âmbito da SST com intuito de transmitir a segurança no trabalho às suas equipas como a prioridade diária;
- Implementar um programa de segurança comportamental;
- Promover a realização de verificações de segurança por trabalhadores, com intuito de melhorar a interiorização das normas e valores de segurança, por observação dos comportamentos e, essencialmente, das condições garantidas nos locais de trabalho “vizinhos”;
- Reforçar a utilização de indicadores positivos para a monitorização das atividades organizacionais de segurança;
- Incluir, à semelhança do que realiza o departamento de RH, nas atividades anuais de SST, a realização do estudo do clima e cultura de segurança (poderão ser trabalhados questionários parciais mediante as áreas prioritárias a intervir e que foram alvo de ações implementadas, com intuito de avaliar a eficácia das mesmas na população de trabalhadores).
O facto da empresa, num futuro próximo, estar a planear a certificação do seu sistema de gestão, a integração do SafetyCard como uma ferramenta interna, irá permitir uma imediata resposta à necessidade de evidência da avaliação de desempenho e evolução do seu sistema de gestão (Requisito 9 – ISO 45001:2018), cumprindo desta forma um dos requisitos normativos.

REFLEXÕES FINAIS
Considera-se que a ferramenta utilizada, o SafetyCard, é uma ferramenta de fácil aplicação e que pode ser integrada facilmente na realidade da organização. Outra das suas vantagens está relacionada com o facto de ser possível a sua utilização na totalidade ou de forma parcial.
Ainda que no presente estudo a ferramenta tenha sido utilizada no seu formato original, sem rever a grelha de indicadores utilizados (apenas eliminando um dos indicadores dos 110 previstos pelo autor), o seu potencial de versatilidade permite que as empresas façam as adaptações necessárias, ajustando os indicadores a utilizar à sua realidade. Uma vez que a ferramenta utiliza a base de um scorecard, permite que a mesma possa ser utilizada para a realização de exercícios de benchmarking entre empresas.
Além disso, o facto de incluir o Clima de Segurança como indicador permite, além de uma análise mais simplista, focada na organização dos Serviços de SST, tentar caracterizar e conhecer as perceções e atitudes individuais de SST dos trabalhadores. Este ponto permite trabalhar áreas que possam influenciar diretamente na adoção de comportamentos de risco por parte dos trabalhadores.
Para concluir, importa ainda referir, que durante o ano de 2021 a empresa voltou a proceder à recolha de dados para aplicação novamente do SafetyCard. Os dados encontram-se a ser tratados e, em breve, poderá ser avaliada a evolução do desempenho do sistema em comparação com os dados obtidos no estudo de 2019, aqui em análise, no presente artigo.

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Segurança Comportamental

A revista Segurança Comportamental é uma revista técnico-científica, com carácter independente, sendo a única revista em Portugal especializada em comportamentos de segurança.

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