ERGONOMIA: 30 ANOS NO CONTROLO DAS DOENÇAS MÚSCULO-ESQUELÉTICAS

11 março 2022
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Author :   Carolina Chaves
CAROLINA CHAVES | Licenciada em Ergonomia. Ergonomista na equipa Health & Safety da Visteon Portugal. | cchaves@visteon.com Chaves, C. (2022). Ergonomia: 30 anos no controlo das doenças músculo-esqueléticas. Revista Segurança Comportamental, 15, 38-43. GA, Lda. Lisboa. Portugal

O objetivo deste artigo é apresentar a evolução, das últimas três décadas, da saúde e segurança no trabalho através da prática ergonómica na Visteon Portuguesa, nomeadamente nas unidades fabris de industrialização. Às linhas de montagem, inicialmente em cadeia, estava associado o aparecimento de lesões músculo-esqueléticas dos membros superiores. Intervencionar com foco numa área especifica e expandir à restante cadeia de produção foi um fator de sucesso, mas a diferença nos resultados fez-se pela evolução cultural, apoiada pela direção, implementada por técnicos especialistas e operadores.

CARACTERIZAÇÃO DO CONTEXTO
A unidade da Visteon Corporation em Palmela é responsável pela produção de dispositivos de informação e áudio, controlos climáticos, soluções de entretenimento, iluminação eletrónica, sendo considerada uma das maiores fábricas de produção de componentes eletrónicos da Europa. Para além das unidades fabris de eletrónica e injeção, possui ainda um centro de serviços partilhados com responsabilidades globais e um centro de desenvolvimento tecnológico.
Teve o seu início com a casa mãe “Ford Motor Company” tendo iniciado a produção em Palmela com o nome de “Ford Eletrónica Portuguesa”. Desde a sua fundação em Portugal em 1991 mantém uma cultura de segurança e saúde integradora, com preocupações ergonómicas e de segurança dos seus trabalhadores.
A linha de montagem poderia ser definida como uma sequência de estações de trabalho de montagem manual e/ou automática, pelas quais um ou mais produtos são industrializados sequencialmente. As linhas de montagem eram caracterizadas pelo trabalho em cadeia e na Visteon Portuguesa, há três décadas atrás, não havia alternância dos postos de trabalho por parte das operadoras.
Nesta organização de trabalho em cadeia, as estações de trabalho apresentavam características intrínsecas de repetitividade ao nível dos membros superiores, a minuciosidade do gesto, o tempo de ciclo curto e o compromisso mão/visão, o que juntamente com as características do produto (no que respeita o design e às dimensões físicas) e as exigências do cliente tornavam algumas das estações de trabalho com risco biomecânico médio ou até mesmo elevado. À data a população era jovem, com idade inferior a 25 anos, em primeiro emprego e maioritariamente feminina.

INTERVENÇÃO
Tendo em conta este contexto, a Visteon Portugal preocupada com a saúde dos seus trabalhadores, investiu na mudança. A primeira etapa para esta intervenção, visou o diagnóstico da situação e baseou-se no estudo, análise de risco e levantamento de prioridades numa área específica, nomeadamente na área de áudio Final Assembly. Esta área era composta por 4 linhas que possuíam cada uma 25 postos de trabalho, sendo estes agrupados em 3 grandes grupos: montagem, aparafusamento, teste e embalamento.
Como já referido, estas tarefas tinham como fatores de risco a repetibilidade e a minuciosidade do gesto, caraterísticas que estão na base das lesões cumulativas dos membros superiores. A intervenção corretiva e/ou preventiva deve apostar essencialmente nas áreas de alcance, tipo de movimento, duração e frequência dos mesmos.
Após esta primeira fase de análise e levantamento de riscos foram estabelecidos planos de rotação de postos de trabalho de modo que as operadoras alternassem a solicitação músculo-esquelética de uma forma sistemática e com uma sequência pré-definida.
Segundo Pires et al., (1997) a efetividade dos programas de rotação de postos de trabalho depende directamente das diferenças nas cargas músculo-esqueléticas e das várias operações permitindo a recuperação muscular de uma forma ativa. Os programas de rotação de postos de trabalho permitem ainda a diminuição do stresse psicológico associado ao trabalho repetitivo, aumentando também os níveis de atenção.
O programa de rotação foi implementado em simultâneo com um plano das alterações físicas dos postos de trabalho visando a diminuição da repetibilidade e o aumento do enriquecimento de tarefas. As linhas inicialmente constituídas por 25 estações em cadeia deram lugar a células de 3 ou 4 estações onde o nível de automação e robótica diminuiu ou até mesmo eliminou a grande maioria dos movimentos repetitivos, principalmente nas operações de montagem e aparafusamento. Estas alterações permitiram a diminuição da carga de trabalho ao nível dos membros superiores e a redefinição e o enriquecimento das tarefas dentro das áreas de alcance admissíveis para o tipo de trabalho tornando a atividade menos repetitiva e dentro dos parâmetros aceitáveis (Quadro n.º 1).
No final desta fase as linhas estudadas tinham as análises de risco concluídas, um plano para alteração/correção definido, assim como os planos de rotação implementados com uma frequência bi-horária.
Com esta primeira intervenção verificou-se uma diminuição significativa dos casos identificados com patologia e/ou queixas ao nível dos membros superiores, o que acabou por justificar o alastramento das medidas adotadas a toda a nave fabril.

EVOLUÇÃO DA CULTURAL
Tendo como objetivo a evolução em termos de segurança e saúde no trabalho, a Visteon Portugal quis replicar a intervenção atrás descrita. Assim, seguiu-se um período relativamente longo de modo que o trabalho efetuado inicialmente nas linhas de áudio Final Assembly fosse estendido a toda a nave fabril. Este foi um tempo em que o trabalho desenvolvido era principalmente de correção. As linhas eram analisadas, identificados os riscos e a penosidade da operação quantificada.
A cultura, pela qual a empresa sempre pugnou, simplificou a nossa acção. As equipas de trabalho que colaboraram nas acções corretivas e nas implementações foram e são multidisciplinares, contando com diversos elementos, desde as várias áreas de engenharia, área da segurança, área médica e representantes dos trabalhadores. Por outro lado, as implicações dessas acções sempre foram suportadas pela gestão/direção da empresa, muitas das vezes com perda de produção e problemas de qualidade nos produtos.

"(...) O programa de rotação foi implementado em simultâneo com um plano das alterações físicas dos postos de trabalho visando a diminuição da repetibilidade e o aumento do enriquecimento de tarefas. (...) as implicações dessas ações sempre foram suportadas pela gestão/direção da empresa, muitas das vezes com perda de produção e problemas de qualidade nos produtos."

Nesta fase, o trabalho em equipa foi fundamental. A área médica também foi chamada a intervir e restruturou--se para responder às exigências e necessidade de análise dos casos clínicos que surgiram, o que permitiu fazer a relação causal entre as patologias diagnosticadas e os riscos ocupacionais identificados. Na fase em que o número de casos começou a aumentar e para que a identificação e tratamento dos mesmos fossem feitos o mais precocemente possível a área médica reforçou temporariamente a sua atuação recorrendo a especialistas em fisioterapia e ortopedia. Estas ações tornaram o diagnóstico e tratamento dos casos mais acurados e céleres.
Dada a constante evolução do sistema produtivo, com entrada de novos produtos e a inevitável conceção de novas linhas e novos sistemas, a intervenção da área de ergonomia & segurança teve também uma alteração. Ao invés de trabalharmos na fase de correção foi decidido que iriamos integrar os grupos responsáveis pela conceção, planeamento e implementação de novas linhas de produção, novos conceitos de industrialização e novos equipamentos. Queríamos deixar de ter de corrigir, para passar a poder prevenir.
Este foi um grande desafio porque, trabalhando com os grupos numa fase inicial de projeto, as hipóteses e a criatividade das implementações não estavam limitadas pela pressão do tempo e da produção.
Fonseca et al., (1998) salienta que a conceção dos locais de trabalho é o momento privilegiado para se proceder à identificação e avaliação dos diversos tipos de risco que poderão vir a ocorrer após o início da actividade. As equipas multidisciplinares terão de ter o conhecimento pormenorizado do processo produtivo, dos métodos de trabalho, detalhe dos produtos, equipamentos e layout, assim como da organização de trabalho.

 Quadro n.º 1 – Resumo das Medidas Ergonómicas Implementadas

RISCO

MEDIDAS DE ELIMINAÇÃO,

REDUÇÃO E CONTROLO DE RISCO

VANTAGENS DIFICULDADES
Lesões músculo-esquelético dos membros superiores Planos de rotação de postos de trabalho  - Diminuição de degaste músculo-esquelético específico.
- Recuperação muscular de uma forma ativa.
- Diminuição do stresse psicológico associado ao trabalho repetitivo.
- Aumento dos níveis de atenção.
- Problemas de qualidade inerentes ao período de aprendizagem das várias estações de trabalho por parte das operadoras.
Lesões músculo-esquelético dos membros superiores Plano das alterações físicas dos postos de trabalho - Diminuição da carga de trabalho ao nível dos membros superiores.
- Redefinição das tarefas dentro das áreas de alcance admissíveis.
- Enriquecimento de tarefas.

- Perda de produção devido à paragem de linha para execução das alterações físicas.

Quadro n.º 2 -Fatores de Sucesso na Evolução Cultural

FATORES DE SUCESSO CARATERÍSTICAS
GESTÃO/DIREÇÃO

Comprometida e envolvida, com o objetivo de ser uma mudança cultural e não intervenções pontuais.
TRABALHADORES

Parte integrante e imprescindível da equipa, ao validar e sugerir as soluções a adotar.
EQUIPAS DE TRABALHO

Multidisciplinares, com massa crítica, com o objetivo dos planos e programas serem o mais completos e adequados possíveis.

SAÚDE NO TRABALHO


Envolvida, com o objetivo de análise precoce dos casos clínicos, direcionando a intervenção ergonómica no terreno e a correção médica com especialistas.
ERGONOMIA & SEGURANÇA

Participação a montante em fase de projeto (conceção, planeamento) com o objetivo de prevenir em vez de corrigir.
FORNECEDORES As especificações ergonómicas e de segurança passaram a integrar os cadernos de encargos, garantindo à partida que os nossos fornecedores cumprem os nossos requisitos.
TESTES PRÉ-ARRANQUE DE OPERAÇÕES Permitem alguns ajustes e correções dos processos e dos layout’s da linha, antes do início de produção, de forma a uma maior adequabilidade dos postos de trabalho e equipamentos aos operadores, tendo sempre em mente a “adaptação do trabalho ao homem”.

Nesta fase a discussão e a partilha de ideias permitem projetos e implementações de raiz, garantindo que o lançamento das novas linhas e dos novos produtos pudesse ser feito com o menor risco associado. As especificações ergonómicas e de segurança passaram a integrar os cadernos de encargos, garantindo à partida o seu cumprimento pelos nossos fornecedores.
Estas especificações permitem fornecer os limites mínimos e máximos admissíveis em cada situação específica da atividade de trabalho. Desta forma, os equipamentos e as estações de trabalho terão garantidas as áreas e as tarefas dentro dos limites de conforto, tendo sempre em consideração a frequência de utilização.
Numa segunda fase de cada projecto as equipas verificam física e detalhadamente o cumprimento destas normas e especificações e concluem a “aceitação de equipamento”.
Após a instalação dos equipamentos e das estações de trabalho há que acompanhar as equipas de engenharia e manufatura nas primeiras fases de produção. Estas fases ainda de teste permitem alguns ajustes e correções dos processos e dos layout’s da linha. Este acompanhamento do lançamento do novo produto e processo produtivo mantém-se até ao momento em que o projecto é entregue à manufatura e passa a produção diária e contínua.

"A comunicação, a partilha de análise e resultados, com o envolvimento e participação de todos os intervenientes, simplifica todas as fases deste processo.Os representantes e os próprios colaboradores são parte integrante e imprescindível desta equipa, ao validar ou mesmo sugerir as implementação e soluções adotadas."

O acompanhamento e participação destas equipas de trabalho no lançamento dos processos de industrialização garantem a adequabilidade dos postos de trabalho e equipamentos aos operadores, tendo sempre em mente a “adaptação do trabalho ao homem”.
Segundo Maurice de Montmollin (1990), a Ergonomia tem em consideração o homem de modo a que possa adaptar as máquinas e os dispositivos técnicos às suas características. A análise ergonómica privilegia a interface do sistema Homem-Máquina.
A comunicação, a partilha de análise e resultados, com o envolvimento e participação de todos os intervenientes, simplifica todas as fases deste processo. Os representantes e os próprios colaboradores são parte integrante e imprescindível desta equipa, ao validar ou mesmo sugerir as implementação e soluções adotadas (Quadro n.º 2)

RESULTADOS E CONCLUSÃO
Os resultados alcançados aos longo de todos estes anos demonstram o contributo do trabalho em equipa com todas as áreas envolvidas. Este conjunto de ações levou à diminuição progressiva de novos casos de patologia músculo-esquelética nos membros superiores e o controlo de patologias profissionais.
Atualmente a indústria possui um elevado nível de automatização e robótica, o que cria novos desafios às áreas de Ergonomia, Segurança e Médica. Sendo a indústria eletrónica caracterizada pela constante inovação e evolução, tanto de produtos como do processo de industrialização, torna-se um desafio enorme e constante fazer o acompanhamento de toda a inovação e estar na vanguarda do lançamento dos novos produtos e processos. Garante-se o acompanhamento de forma a assegurar a sua perfeita adequação às características e modos de funcionamento dos operadores, minimizando os fatores penalizadores.
Esta, é a abordagem usada perante os desafios com que a equipa multidisciplinar (1) de Health & Safety da Visteon Portuguesa se depara diariamente!

Referências bibliográficas
Fonseca, A., Rodrigues, M. F., Pina, J. S., Baptista, M. A. (1998). Conceção de Locais de Trabalho – Guia de Apoio. Instituto de Desenvolvimento e Inspeção das Condições de Trabalho.
Montmollin, M. (1990). A ergonomia. Lisboa, Instituto Piaget.
Pires, P.; Acabado, F.; Simões, A.; (1997). Estudos ergonómicos para implementar a rotação de postos de trabalho numa indústria de componentes elétricos. Revista Portuguesa de Ergonomia, nº 1 de dezembro, pp. 71-76
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(1) Equipa de Health & Safety: Carolina Chaves – Ergonomia; Sara Roque – Enfermagem do trabalho; Pedro Madeiras – Segurança Industrial; e, Lígia Gaudêncio – Ambiente e Segurança

Segurança Comportamental

A revista Segurança Comportamental é uma revista técnico-científica, com carácter independente, sendo a única revista em Portugal especializada em comportamentos de segurança.

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